Esquecer um compromisso, não encontrar as chaves ou perder o fio a uma conversa pode gerar inquietação, sobretudo quando estas situações começam a repetir-se. É natural questionar se existe algum problema de memória. Mas o significado destes sinais depende de vários fatores: quando começaram, em que circunstâncias surgem, como evoluem e quanto interferem com a vida quotidiana.
A memória não funciona de forma isolada. A atenção, o sono, o estado emocional e a saúde física influenciam a maneira como recebemos, organizamos e recordamos a informação. Por isso, nem todos os esquecimentos indicam demência, embora também não devam ser automaticamente atribuídos ao stress ou à idade.
Memória e atenção: porque é que podemos sentir que nos esquecemos de tudo?
Para nos lembrarmos de uma informação, primeiro precisamos de lhe prestar atenção. Quando estamos preocupados, cansados ou a realizar várias tarefas ao mesmo tempo, nem sempre a registamos de forma eficaz. Mais tarde, podemos sentir que a esquecemos, quando a dificuldade começou precisamente no momento em que tentávamos concentrar-nos.
Isto ajuda a compreender algumas queixas de memória, mas não explica todas. Uma dificuldade de concentração persistente é real e pode ter impacto no trabalho, nas relações e na autonomia, independentemente da sua origem.
De que forma a ansiedade pode afetar a concentração?
Na ansiedade, uma parte importante da atenção pode estar ocupada com preocupações, antecipação de problemas ou necessidade constante de verificar se está tudo bem. Isso pode dificultar a leitura, o acompanhamento de uma conversa, a organização de tarefas e a utilização da chamada memória de trabalho, que nos permite manter e manipular informação durante alguns segundos.
A investigação encontra uma associação entre a perturbação de ansiedade generalizada e dificuldades em algumas funções executivas, como a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva. No entanto, a intensidade e o tipo de dificuldade variam de pessoa para pessoa. Esquecer-se de algo ou distrair-se facilmente não significa, por si só, ter uma perturbação de ansiedade.
A depressão também pode provocar esquecimentos?
Pode. A depressão não se manifesta apenas através de tristeza ou desânimo. Em algumas pessoas, associa-se a maior lentidão do pensamento, dificuldade em tomar decisões, menor capacidade de concentração e alterações da memória. Estas manifestações podem ser particularmente relevantes nas pessoas mais velhas, em quem as queixas cognitivas levantam, por vezes, receio de demência.
Algumas dificuldades melhoram com o tratamento da depressão, mas a recuperação não é necessariamente imediata ou completa. Além disso, a depressão e uma doença neurodegenerativa podem coexistir. É precisamente por isso que uma explicação emocional não deve dispensar a investigação de alterações cognitivas persistentes ou progressivas.
Esquecimentos habituais ou sinais de alteração cognitiva?
Com a idade, pode ser necessário mais tempo para recordar um nome, aprender uma informação nova ou recuperar um pormenor de uma conversa. Isto não é, por si só, sinal de demência. Diferente é começar a ter dificuldades progressivas em tarefas anteriormente habituais, perder-se em locais conhecidos, repetir frequentemente as mesmas perguntas ou deixar de conseguir gerir aspetos importantes da rotina.
Mais do que um esquecimento isolado, interessa perceber se existe uma mudança relativamente ao funcionamento habitual da pessoa. A evolução ao longo do tempo, o impacto na autonomia e a informação de familiares ou pessoas próximas ajudam a orientar a avaliação. Nenhum destes sinais, considerado isoladamente, permite estabelecer um diagnóstico.
Quando vale a pena procurar avaliação?
É aconselhável procurar avaliação médica quando as dificuldades de memória ou concentração:
- se repetem e começam a interferir com o trabalho, as atividades diárias ou as relações;
- se agravam progressivamente ou são reconhecidas também por familiares e pessoas próximas;
- envolvem desorientação, dificuldades crescentes em tarefas habituais ou mudanças relevantes de comportamento;
- surgem em conjunto com alterações persistentes do humor, do sono ou do estado geral.
Se houver confusão de início súbito, dificuldade inesperada em falar, perda de força de um lado do corpo, desvio da boca ou alteração súbita da visão, é necessária ajuda médica imediata: ligue 112.
Que outras causas devem ser consideradas?
O sono insuficiente, alguns medicamentos, o consumo de álcool, alterações da tiroide, défices nutricionais, dificuldades de audição ou visão e determinadas doenças médicas ou neurológicas também podem contribuir para queixas cognitivas. Algumas destas causas são potencialmente tratáveis.
Por isso, a avaliação deve considerar a pessoa na sua globalidade. É importante referir os medicamentos que toma, mas nunca os interromper por iniciativa própria.
Qual é o papel da Psicologia e da avaliação neuropsicológica?
A investigação de alterações de memória começa habitualmente com uma avaliação médica, que considera a história dos sintomas, o estado de saúde, a medicação e, quando indicado, exames complementares ou encaminhamento especializado. A avaliação psicológica acrescenta uma compreensão das dificuldades emocionais, do seu impacto funcional e da forma como a pessoa está a lidar com aquilo que sente.
Em determinadas situações, a avaliação neuropsicológica formal pode ajudar a caracterizar com maior detalhe capacidades como memória, atenção, linguagem, velocidade de processamento e funções executivas. Deve ser realizada por profissionais com competências específicas e interpretada em conjunto com a restante informação clínica, tendo em conta fatores como a escolaridade, o estado emocional, a audição ou a visão.
Um resultado num teste, por si só, não confirma nem exclui demência. Da mesma forma, a avaliação neuropsicológica não é necessária para todas as pessoas com esquecimentos e não substitui a investigação médica quando existe suspeita de doença neurológica.
Como pode ajudar o acompanhamento psicológico?
As queixas de memória e concentração podem ser acompanhadas de ansiedade, frustração, perda de confiança e receio do futuro. O acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender e a gerir este sofrimento, a trabalhar dificuldades emocionais que coexistem com as queixas cognitivas e a lidar com mudanças associadas ao envelhecimento ou a um diagnóstico.
O apoio pode também estender-se aos familiares e cuidadores, especialmente quando existem alterações cognitivas com repercussões nas relações e na vida diária. A intervenção deve respeitar as necessidades identificadas e articular-se com avaliação médica sempre que esta esteja indicada.
O que fazer se começou a notar estas dificuldades?
Antes de tirar conclusões, procure observar situações concretas: o que se esqueceu, com que frequência acontece, desde quando e se existiram mudanças no sono, no humor ou na saúde. Levar estes exemplos para a consulta ajuda a explicar melhor as dificuldades. Quando apropriado, a perspetiva de alguém próximo também pode ser útil.
Se as queixas persistem, se agravam ou afetam a autonomia, procure avaliação médica. Quando há ansiedade, depressão ou sofrimento emocional associados, o acompanhamento psicológico pode integrar a resposta, sem substituir a investigação de outras possíveis causas.
Uma mensagem importante
Sentir que a memória já não funciona como antes não é um diagnóstico. Compreender a origem das dificuldades exige atenção à história de cada pessoa, à sua saúde emocional e física e à evolução dos sintomas.
Referências principais
- National Institute on Aging (NIA). Memory Problems, Forgetfulness, and Aging.
- Teixeira AL, et al. (2025). Cognitive Deficits in Late-Life Depression: From Symptoms and Assessment to Therapeutics. Focus, 23(2), 183–194.
- Nguyen L, et al. (2025). Executive functioning in individuals with generalized anxiety disorder: A systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders, 389, 119683.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Dementia: assessment, management and support for people living with dementia and their carers. NG97.
- Atri A, et al. (2025). Alzheimer’s Association clinical practice guideline (DETeCD-ADRD): Executive summary of recommendations for primary care. Alzheimer’s & Dementia, 21(6), e14333.
- National Health Service (NHS). Memory loss (amnesia).
- Ordem dos Psicólogos Portugueses. Recomendações acerca das competências necessárias para realizar avaliação neuropsicológica.
- Direção-Geral da Saúde (DGS). Doenças cérebro-cardiovasculares: perguntas frequentes e sinais de alerta de AVC.

